Quarta-feira, Junho 03, 2009


[Acho que estamos prestes a mudar de endereço]

Terça-feira, Maio 19, 2009


Poeminha da Desesperança

Hoje eu sei,
para sempre
é um estado de espírito.
É justamente por isso
que não dura
para sempre.

Segunda-feira, Abril 20, 2009


De Vontades

Analia nem sempre tem vontades, mas não sabe como explicar isso. Às vezes Analia se entrega a uma espécie de apatia da qual só consegue escapar fazendo amor. Ou pelo menos é isso que os outro pensam. Analia não entende essa coisa de fazer amor, ela acha que amor não se faz, amor se sente. E Analia sente amor o tempo todo, a cada nova possibilidade, a cada novo desconhecido que lhe cruza o caminho. Ela não sabe explicar o que é viver dessa arte de amar a tantos ao mesmo tempo e se ressente. Se ressente de ter tantas vontades com o novo e uma espécie de doçura juvenil com o que já tem. Analia só se deita com ferocidade no desconhecido e se sacia inteira até o dia seguinte, quando o ventre lateja pedindo mais e o estômago aperta pensando em paixão, só para depois desapertar no tédio. A verdade é que Analia faz casa em poucos e amansa de um jeito que não queria, não é justo. E na doçura às vezes redescobre amor. Analia não acha que a vida deveria ser feita de escolhas, é egoísmo dos mais vis que alguém a queira só para si.

Quarta-feira, Abril 01, 2009


Sinistrogiro

Eu acordo e tenho medo da pessoa que fui no dia anterior. Das coisas que fiz, das coisas que não fiz, sobretudo das coisas. As minhas. Eu acordo todos os dias e fico pensando nas coisas que não vou fazer, mas devia. Eu acendo um cigarro no início da tarde e fico friamente pensando no absurdo das minhas explosões, nos motivos de tanta emotividade, de toda passionalidade desmedida. Mas alguma coisa sempre me interrompe. Eu sempre me interrompo. Tenho complexo de trator. Guardo toda a minha dedicação a um tédio não reflexivo. Atropelo.

Quinta-feira, Março 19, 2009


Ano Novo

Rodas e tambores ao meu redor. É dia de azul e branco. É dia de mar e de chuva. Se ela é mãe, seu aniversário me fez voltar ao ovo. Cercada de ela. E nascer de novo. Assim, quase virgem do meu superego. E eu tenho sede de toda a água que fui, que me deixei ser quase sem opção. Quase como se fosse peixes, em caos de não querer parar. Iemanjá veio me dizer que sentir de pouquinho assim, já não dá mais.

Sábado, Março 07, 2009




Dispenso esta rosa!


Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: "parabéns".

Por alguns segundos, a gente tenta entender por que raios estamos recebendo parabéns se não é nosso aniversário (exceção, claro, à minoria que, de fato, faz aniversário neste dia). Depois de ficar com cara de bestas, num estalo a gente se lembra da data, dá um sorriso amarelo e responde "obrigada", pensando: "mas por que eu deveria receber parabéns por ser mulher?".

Mais tarde, chega um funcionário distribuindo rosas. Novamente, sorriso amarelo e obrigada. É assim todos os anos. Quando não é no trabalho, é em alguma loja. Quando não é numa loja, é no supermercado. Todos os anos, todo 8 de março: é sempre a maldita rosa.

Dizem que a rosa simboliza a "feminilidade", a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade -- da supervalorização da virgindidade é que saiu o verbo "deflorar" (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a -- afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a idéia de que mulheres sexualmente ativas são "putas", inferiores, menos respeitáveis.

A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento mais brusco lhe arranca as pétalas. Dizem o mesmo de nós: que somos o "sexo frágil" e que, por isso, devemos ser protegidas. Mas protegidas do quê? De quem? A julgar pelo número de estupros, precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os homens que estupram são psicopatas, dizem. São loucos. Não é com estes homens que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos a tarefa de nos proteger. Mas, bem, segundo pesquisa Ibope/Instituto Patricia Galvão, 51% dos brasileiros dizem conhecer alguma mulher que é agredida por seu parceiro. No resto do mundo, em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o próprio marido ou companheiro.Este tipo de crime também aparece com frequência na mídia. No entanto, são tratados como crimes "passionais" -- o que dá a errônea impressão de que homens e mulheres os cometem com a mesma frequência, já que a paixão é algo que acomete ambos os sexos. Tratam os homens autores destes crimes como "românticos" exagerados, príncipes encantados que foram longe demais. No entanto, são as mulheres as neuróticas nos filmes e novelas. São elas que "amam demais", não os homens.

Mas a rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladoras, castradoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos o pobre Adão do paraíso (como se Eva lhe tivesse enfiado a maçã goela abaixo, como se ele não a tivesse comido de livre e espontânea vontade). Várias culturas têm a lenda da vagina dentata. Em Hollywood, as mulheres usam a "sedução" para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de "respeito" e as mulheres têm "mentes perigosas". A mensagem subliminar é: "cuidado, meninos, as mulheres são o capeta disfarçado". E, foi com medo do capeta que a sociedade, ao longo dos séculos, prendeu as mulheres dentro de casa. Como se isso não fosse suficiente, limitaram seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), saltos altos. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era uma propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua "mente perigosa" causaria coisas terríveis.

Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam. Hoje, sim. Vivemos num mundo "pós-feminista" afinal. Todas essas discriminações acabaram! As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo? Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões) têm crescido no Brasil, em vez de diminuir. Nos centros urbanos, onde a estrutura ocupacional é mais complexa, a disparidade tende a ser pior. Considerando que recebo menos para desempenhar o mesmo serviço, não parece irônico que o meu colega de trabalho me dê os parabéns por ser mulher?
Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades. Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 10oº lugar entre 130 países. As mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso -- onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas. Do total de prefeitos eleitos no ano passado, apenas 9,08% são mulheres. E nós somos 52% da população.

A rosa também simboliza beleza. Ah, o sexo belo. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é exatamente o contrário. Você nunca está bonita o suficiente, bobinha. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer. Não pode ter celulite (embora até bebês tenham furinhos na bunda). Você só terá valor quando for igual a uma modelo de 18 anos (as modelos têm 17 ou 18 anos até quando a propaganda é de creme rejuvenescedor...). Mas mesmo ela não é perfeita: tem de ser photoshopada. Sua pele é alterada a ponto de parecer de plástico: ela não tem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas, nenhuma dessas coisas que a gente tem quando vive. Ela sorri, mas não tem linhas ao lado da boca. Faz cara de brava, mas sua testa não se franze. É magérrima (às vezes, anoréxica), mas não tem nenhum osso saltando. É a beleza impossível, mas você deve persegui-la mesmo assim, se quiser ser "feminina". Porque, sim, feminilidade é isso: é "se cuidar". Você não pode relaxar. Não pode se abandonar (em inglês, a expressão usada é exatamente esta: "let yourself go"). Usar uma porrada de cosméticos e fazer plásticas é a maneira (a única maneira, segundo os publicitários) de mostrar a si mesma e aos outros que você se ama. "Você se ama? Então corrija-se". Por mais contraditória que pareça, é esta a mensagem.

Todo dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte. Os anúncios e ensaios de moda glamurizam a violência contra a mulher. Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são bundas ambulantes, meros objetos sexuais. A pornografia mainstream (feita pela Hollywood pornô, uma indústira multibilionária) tem cada vez mais cenas de violência, estupro e simulação de atos sexuais feitos contra a vontade da mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas.

Todo dia 8 de março, volto para casa e vejo um monte de mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem. Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres, para que elas fujam de quem as assedia. Pois é, eles não punem os responsáveis. Acham difícil. Preferem isolar as vítimas. Enquanto não combatermos a idéia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são "convidativas", propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir. Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio, isso nunca vai deixar de existir. Atualmente, a propaganda da NET mostra um pinguim (?) dizendo "ê lá em casa" para uma enfermeira. Em outro comercial, o russo garoto-propaganda puxa três mulheres para perto de si, para que os telespectadores entendam que o "combo" da NET engloba três serviços. Aparentemente, temos de rir disso. Aparentemente, isso ajuda a vender TV por assinatura. Muito provavelmente, os publicitários criadores desta peça não sabem o que é andar pela rua sem ser interrompida por um completo desconhecido ameaçando "chupá-la todinha".

Então, dá licença, mas eu dispenso esta rosa. Não preciso dela. Não a aceito. Não me sinto elogiada com ela. Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário.

...Enquanto isso não acontecer, meu querido, enfia esta rosa no dignissímo senhor seu cu.


[Texto de Marjorie Rodrigues]

Comunidades no orkut: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=59614990
http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=26646467

Segunda-feira, Março 02, 2009


Red Red Red


Ela apoiou o saco plástico no balcão da cozinha, a geladeira ainda aberta, e falou:
- Estão podres. Tsc.
Fechou a porta da geladeira com o pé e jogou o saco com os tomates no lixo. Pensou que agora teria que ir ao supermercado e não queria. Tomou uma caneca de café doce enquanto vestia um jeans e camiseta preta. Prendeu os cabelos na frente do espelho pensando nas suas sobrancelhas para evitar pensar nas coisas que se estragam. Acalmou a pontada no estômago com o último gole de café doce. Doce, para aliviar o amargor das impossibilidades. Meteu os pés em sapatinhos pretos e saiu. Hesitou por um fechar de pálpebras antes de entrar no carro. No breve caminho pensou em como gostaria de ter ido a pé. Ela é assim, adora andar a pé, mas acaba sempre indo de carro. Vai ver é para sentir mais forte o quanto gosta de caminhar. Tem pessoas que só se entendem na falta.

Dentro do mercado achou a luz forte demais, o piso branco demais. As verduras, bem ordenadas demais, quase como se quisesse evitar que as coisas seguissem sua vontade natural de bagunçar. Enconstou a cabeça no freezer de refrigerantes e olhou os tomates: grandes, redondos, maduros. Lindos, ela acariciava o braço esquerdo com a mão direita como que para tentar esquentar, não queria outros tomates, não. Queria aqueles que haviam apodrecido na geladeira, queria que eles ainda estivessem bons. Impossibilidades. Não podia evitar que as coisas chegassem ao fim. Sentiu quase transbordar os olhos. Respirou fundo contraiu o estômago, para que ele se mantivesse dentro do corpo. Escolheu os tomates mais feios, quase que propositalmente. Pegou umas cervejas para fazerem companhia no almoço.

Ao chegar em casa abriu uma cerveja e guardou as outras na geladeira, ainda com o cheiro das coisas que se estragam. O cheiro da sua impossibilidade. Tomou outro gole, amargo, e abriu o saco com os tomates novos. Enquanto os lavava pensou em como era feios e em como os antigos eram bem melhores. Espetou um tomate com o garfo e pos em cima da boca acesa do fogão, a outra mão de mãos dadas com a cerveja. Ficou olhando a pele do tomate soltar entre um gole e outro, sentindo o cheiro enjoativo de quase queimar do tomate. Um após o outro ela tirava a pele dos tomates e achava que eles estavam am carne viva por baixo. Sentiu apertar o peito, com as mãos sujas de vermelho, e controlou a vontade autodestrutiva de esmagar o tomate com as mãos. Fragilidade. Bebeu em goles grandes e lavou as mãos. Começou a pensar em todas as coisas que o molho de tomate precisaria: alho, sal, orégano, louro, cebola... Acendeu um cigarro e enxugou o suor da testa com a mão. Não. Não queria outro molho. Queria o antigo que ela não havia feito com os tomates que se estragaram. Impossibilidade. Abriu mais uma cerveja e se perguntou se não seria melhor esquecer os tomates. Não. É claro que não seria. Sentiu-se enjoar quando triturou os tomates no liquidificador. A fragilidade em carne viva. As mãos sujas de vermelho. O aperto no peito. Com a panela no fogo percebeu que tinha medo de não gostar mais de molho de tomate. Não sabia se aquele molho seria tão bom quanto o outro. Serviu o molho em cima de um prato de macarrão. Tomou um gole de cerveja para dar coragem.

Sexta-feira, Fevereiro 20, 2009


Antropofagia

Do alto da prateleira um livro
me interroga todos os dias:
"Amar, verbo intransitivo"
E cada dia me respondo:
"Amar, verbo inalcançável"

Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009



"Fidelity": Don't Divorce... from Courage Campaign on Vimeo.


[Aproveitando para divulgar o vídeo da courage campaign, que, diga-se de passagem, é lindo.]

Diálogo Imaginário


- Já é bastante difícil
- O quê?
- Estar apaixonado por alguém
- Quer dizer estar apaixonada por mim?
- Também – riu – Estou falando sério. Você não se lembra como foi difícil? A primeira vez que você se apaixonou por uma garota?
- Eu tento não pensar nessas coisas.
- Mas isso é negar como você se tornou quem é hoje. – suspirou – Eu me lembro. Todos os dias.
- Quer dizer que você pensa em outra todos os dias?
- Penso. Não dessa forma. Penso em como foi confuso, em como foi doloroso. Às vezes penso em todas aquelas que não quiseram ou puderam estar comigo. Era muito difícil para elas, essa coisa toda de dizer aos outros que se é desviante, sei lá, odeio essa palavra.
- É. É. Eu sei. Mesmo depois de todos esses anos que estou com você. Ainda somos desviantes.
- E tantas, tantos, são divorciados todos os dias. Pelas famílias, pelos amigos, por si mesmos. Não é justo, sabe? Não conseguir amar.
- Não, não é. Não é justo que nosso amor valha tanto somente pela medida do nosso esforço. Preferia, acho, ter um amor desses banais, que são simples.
- Nenhum amor é banal, meu bem.
- Eu sei. Te amo.
- Eu também te amo.

Quarta-feira, Janeiro 28, 2009


I want to be a good woman
And I want, for you to be a good man.
This is why I will be leaving
And this is why, I can’t see you no more.
I will miss your heart so tender
And I will love
This love forever

I don’t want be a bad woman
And I can’t stand to see you be a bad man
I will miss your heart so tender
And I will love
This love forever
And this is why I am leaving
And this is why I can’t see you no more
This is why I am lying when I say
That I don’t love you no more

Cause I want to be a good woman
And I want for you to be a good man

[Cat Power - Good Woman]

Terça-feira, Janeiro 27, 2009


Já vou, será
eu quero ver
o mundo eu sei
não é esse lá

por onde andar
eu começo por onde a estrada vai
e nao culpo a cidade, o pai

vou lá, andar
e o que eu vou ver
eu sei lá

não faz disso esse drama essa dor
é que a sorte é preciso tirar pra ter
perigo é eu me esconder em você
e quando eu vou voltar, quem vai saber

se alguem numa curva me convidar
eu vou lá
que andar é reconhecer
olhar

eu preciso andar
um caminho só
vou buscar alguém
que eu nem sei quem sou

Eu escrevo e te conto o que eu vi
e me mostro de lá pra você
guarde um sonho bom pra mim

eu preciso andar
um caminho só
vou buscar alguém
que eu nem sei quem sou


[Los Hermanos - Primeiro Andar]

Quarta-feira, Janeiro 21, 2009


Banzo (parte 3)


Capítulo 3

Alcançaram as rochas em dois dias. A maior parte dos homens dormia em barracas de pele quando eles terminaram de subir até o topo, carneiro, ela disse ao velho. Havia uma fogueira ao redor da qual as barracas estavam montadas e eles estavam escondidos atrás de uma rocha.
- Vai lá falar com eles – ela falou.
- Eu? – o velho olhou espantado – mas eu nem sei quem eles são.
- É uma boa hora para saber, não acha?
- Não sei – resmungou olhando para o chão, enterrando um pé na areia.
- Por favor – ela disse – é importante.
- E como isso deveria me ajudar a fazer as coisas voltarem ao normal?
- Acho que é uma boa hora para você não fazer tudo sozinho uma única vez na existência – ela sorriu – é um pouco chato ter que fazer tudo sozinho sempre.
Ele saiu de trás da rocha e se aproximou calmamente, com sua postura um tanto curvada. Pôde notar que alguns se encontravam despertos, deitados ao redor da fogueira, e o olharam com certo desdém.
- Com licença – disse o velho – sou um viajante.
Os homens continuaram olhando para ele com desdém:
- E o que te trouxe até aqui? – disse um deles
- A minha casa. Foi destruída. – mentiu
- E veio procurar um lugar para ficar?
- Talvez. Queria poder comer um pouco. Há dias que não como, acho. Não dá pra saber.
- Uma semana.
- An?
- Se passou uma semana desde que o sol não mais se pôs.
- Como você pode saber?
- Contando.
O velho não entendeu, mas ficou ali, comeu um pouco e bebeu uma bebida estranha. Ouviu histórias sobre um povo que catalogava estrelas bem antes deles, e que eles haviam seguido o exemplo.
- Não sei nada sobre estrelas – disse o velho.
- Vou te contar um segredo: quando está preste a amanhecer, é possível pega-las. Você imagina o que pode ser feito com isso?
- Não. Por que alguém gostaria de pegar as estrelas?
- Oras, para coleciona-las. Fazer o nosso próprio céu.
- Por que querer o ‘nosso próprio céu’?
O homem riu:
- Porque em alguns lugares já não é mais possível ver o céu. Para um viajante, você não parece ter visto muita coisa. Queremos nosso próprio céu porque tememos um dia perde-lo.
O velho pareceu confuso e disse que iria dar um volta. O homem deitou e fechou os olhos. Andou até a rocha onde havia ficado escondido, mas não havia nem sinal da garota. Voltou e caminhou pelo acampamento, guardando as feições daqueles homens e tudo que lhe haviam ensinado. Foi então que encontrou dois lampiões. Eram lindos. O velho nunca antes havia visto algo tão brilhante e quase entendeu porque alguém gostaria de ter um céu só para si. Pensou que eram vagalumes. Olhou mais para o lado e avistou a garota.
- Procurei você e não achei, pensei que havia ido embora.
- Silêncio – disse baixinho – E muito obrigada – deu um beijo doce na testa dele.
Ela abriu os lampiões daquela gente e pegou os dois vagalumes. Tirou os óculos escuros e encaixou os insetos nos vãos dos olhos. Sorriu:
- Agora sim, já posso voltar.
Ela desapareceu deixando as vestes para trás, com os olhos incandescentes, e subitamente fez-se noite cheia de estrelas, como se fossem vagalumes. O velho entendeu e disse:
- Belos olhos, morena, belos olhos.

Epílogo

Uma luz acendeu na cabana. Em breves instantes foi apagada. O velho apoiava os cotovelos no parapeito da janela e olhava para o céu. Fumava um cachimbo enquanto esperava esquentar a água do chá. Estava feliz, muito feliz, por saber que não fazia as coisas sozinho todos os dias. Era a primeira vez que ficava feliz. Tudo havia voltado ao normal.